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Arte e domesticação

Martha Medeiros

Não é preciso ser doidão para realizar uma grande obra. Há inúmeras pessoas talentosas que vivem de forma regrada.

Tem circulado pela internet um texto assinado ora por um “pai anônimo”, ora por uma “mãe anônima”, mas pouco importa. É o relato de uma pessoa escandalizada com o filme sobre o Cazuza. Entre outras coisas diz: “é estarrecedor que as pessoas estejam cultivando ídolos errados”. E justifica: “reverenciar um marginal como ele é inadmissível (...) a morte de Cazuza foi consequência de sua educação errônea”. Esses trechos bastam para dar uma ideia do conteúdo. Já recebi várias vezes e aqueles que me enviam sempre perguntam: “Você não acha que é um ponto de vista interessante?”

Não, não acho. Considero uma visão limitada e preconceituosa. Se fôssemos admirar apenas o trabalho dos bons moços teríamos que ignorar Oscar Wilde, Chet Baker, Cole Porter, Janis Joplin, Eric Clapton, Billie Holiday, Pablo Picasso, Jack Kerouac, Ernest Hemingway, para citar apenas alguns nomes de uma longa lista de alcoolistas, viciados em drogas, egocêntricos, petulantes, malucos e geniais.

Não é preciso ser doidão pra realizar uma grande obra, há inúmeras pessoas talentosas que vivem de forma regrada, mas há que se respeitar aqueles que necessitam extravasar-se e que não estão prejudicando ninguém. A liberdade sempre foi politicamente incorreta. É pouco provável que Cazuza tivesse criado as belas e viscerais canções que criou caso fosse um menino temente a Deus com um emprego burocrático de segunda a sexta. Nada contra os tementes a Deus com empregos burocráticos, eles dão bons pais de família, bons médicos, bons carteiros e bons maridos, mas que não se queira exigir de um artista este tipo de enquadramento.

Não há razão para temer os desiguais. O autor anônimo do texto diz, a certa altura, que ficou horrorizado porque sua filha adolescente assistiu ao filme e foi preciso explicar a ela que usar drogas, beber até cair e participar de bacanais não são coisas certas. Óbvio que não é um estilo de vida saudável, porém não podemos fingir que o mundo é composto apenas de super-heróis imunes a fraquezas, a curiosidades e a ímpetos que nem sempre estão dentro dos padrões.

O que importa na vida do artista é a sua arte, é o que ele deixa de legado. Biografias filmadas ou escritas, servem apenas para entender a época em que ele viveu, quais eram seus conflitos, qual a fonte de sua inquietação. Ao se contar uma história de vida, seja ela qual for, humaniza-se o personagem. Será que foi essa a explicação que a menina adolescente recebeu depois de assistir ao filme, ou será que ela recebeu uma bela lição sobre maniqueísmo? Meu caro anônimo, há muitas formas de se ministrar uma educação errônea.

Citar Cazuza como um ídolo inadequado é uma miopia desoladora. O que dizer de vários ídolos pré-fabricados que nada acrescentam artisticamente, que não emocionam nem instigam, apenas vendem sandalinhas? Deixemos que alguns artistas experimentem a desobediência, testem seus próprios limites, busquem a vida nos buracos sujos onde ela se esconde. Todos aqueles que pintam, dançam, cantam, escrevem e atuam com o sangue quente e a alma aos gritos, estão, na verdade, ajudando a revelar a nós mesmos, cidadãos acima de qualquer suspeita.


Domingo, 10 de outubro de 2004.



Desenvolvido por Carlos Daniel de Lima Soares.